Por que experiências ao ar livre transformam pessoas mais do que treinamentos tradicionais?

Todos os anos, empresas investem milhões em cursos, palestras e treinamentos para desenvolver suas equipes. No entanto, uma pergunta continua sendo inevitável:

Quanto desse aprendizado realmente se transforma em mudança de comportamento?

A resposta passa por uma característica fundamental do cérebro humano: nós aprendemos muito mais quando vivemos uma experiência do que quando apenas ouvimos sobre ela.

É exatamente esse princípio que orienta as experiências de transformação humana realizadas no Canela de Ema.

O cérebro aprende fazendo

David Kolb, um dos principais pesquisadores da aprendizagem experiencial, demonstrou que o aprendizado acontece em um ciclo composto por quatro etapas:

  • experiência concreta;
  • reflexão sobre a experiência;
  • construção de novos conceitos;
  • aplicação prática.

Em outras palavras, conhecimento só se consolida quando a pessoa vive uma situação, reflete sobre ela e consegue aplicá-la novamente.

Por isso, durante uma atividade de arvorismo, uma travessia, uma dinâmica de equipe ou uma expedição, ninguém está apenas “participando de uma brincadeira”. Cada desafio torna-se uma oportunidade para desenvolver competências como liderança, comunicação, confiança, tomada de decisão e cooperação.

A aprendizagem deixa de ser teórica para tornar-se vivida.

Emoção fortalece a memória

A neurociência mostra que experiências emocionalmente significativas tendem a produzir lembranças mais duradouras.

Antonio Damásio explica que nossas decisões e aprendizagens são profundamente influenciadas pelas emoções. James McGaugh demonstrou que acontecimentos marcantes são armazenados com maior facilidade porque envolvem estruturas cerebrais responsáveis tanto pela emoção quanto pela memória.

É por isso que poucos colaboradores conseguem lembrar de uma palestra assistida há seis meses.

Mas dificilmente esquecem o momento em que precisaram confiar nos colegas para superar um desafio em meio à natureza.

A natureza prepara o cérebro para aprender

Outro diferencial das experiências outdoor está no ambiente.

Segundo Rachel e Stephen Kaplan, criadores da Teoria da Restauração da Atenção, ambientes naturais favorecem a recuperação da fadiga mental provocada pela rotina urbana.

Além disso, diversas pesquisas mostram que o contato com áreas verdes está associado à redução do estresse, melhora da atenção, maior criatividade e aumento do bem-estar.

Em outras palavras, antes mesmo da atividade começar, a natureza já está criando condições mais favoráveis para o aprendizado.

Segurança psicológica nasce da experiência compartilhada

Amy Edmondson, professora da Harvard Business School, demonstrou que equipes de alta performance apresentam um elemento em comum: segurança psicológica.

Ela surge quando as pessoas sentem que podem colaborar, errar, pedir ajuda e aprender juntas sem medo de julgamento.

Curiosamente, esse ambiente costuma surgir com mais facilidade durante desafios vivenciais.

Quando um diretor e um analista precisam remar no mesmo ritmo ou apoiar um colega em uma atividade de aventura, os cargos perdem importância.

O que permanece é a necessidade de cooperação.

Essas experiências fortalecem relações de confiança que frequentemente continuam no ambiente de trabalho.

O verdadeiro retorno do investimento

O maior benefício de uma experiência outdoor não é proporcionar um dia diferente.

É criar condições para que novos comportamentos sejam experimentados, refletidos e incorporados à rotina profissional.

A literatura sobre aprendizagem experiencial mostra que metodologias ativas favorecem:

  • maior engajamento dos participantes;
  • melhor transferência do aprendizado para o trabalho;
  • desenvolvimento de competências socioemocionais;
  • fortalecimento da comunicação e da colaboração;
  • maior integração entre equipes.

Mais do que transmitir conhecimento, essas experiências criam vivências que fazem sentido para quem participa.

E aquilo que faz sentido tem muito mais chance de ser lembrado e colocado em prática.

No Canela de Ema, experiências geram transformação

No Canela de Ema acreditamos que pessoas não mudam porque ouviram uma boa palestra.

Elas mudam quando vivem experiências capazes de provocar reflexão, despertar emoções e inspirar novas formas de agir.

É por isso que nossas vivências combinam natureza, aventura, ciência e desenvolvimento humano.

Não oferecemos apenas atividades ao ar livre.

Criamos experiências que ajudam pessoas e equipes a desenvolverem competências que permanecem muito além do dia da atividade.

Porque transformar comportamento é muito mais poderoso do que simplesmente transmitir informação.

Referências

BALDWIN, Timothy T.; FORD, J. Kevin. Transfer of Training: A Review and Directions for Future Research. Personnel Psychology, v. 41, n. 1, p. 63–105, 1988.

DAMÁSIO, Antonio R. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

EDMONDSON, Amy C. Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, v. 44, n. 2, p. 350–383, 1999.

KAPLAN, Rachel; KAPLAN, Stephen. The Experience of Nature: A Psychological Perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

KOLB, David A. Experiential Learning: Experience as the Source of Learning and Development. 2. ed. Upper Saddle River: Pearson Education, 2015.

McGAUGH, James L. Memory and Emotion: The Making of Lasting Memories. New York: Columbia University Press, 2003.

PRIEST, Simon; GASS, Michael A. Effective Leadership in Adventure Programming. 3. ed. Champaign: Human Kinetics, 2018.

SIBTHORP, Jim et al. Fostering Experiential Self-Regulation Through Outdoor Adventure Education. Journal of Experiential Education. (Você pode utilizar este ou o artigo de 2015 que já havia selecionado.)

ULRICH, Roger S. View Through a Window May Influence Recovery from Surgery. Science, v. 224, p. 420–421, 1984.

 

Sobre a autora

Profa. Dra. Rosa Maria Corrêa é psicóloga, mestre e doutora em Educação, com pós-doutorado em Ciências Sociais. Professora da PUC Minas e diretora técnica da Canela Ema Desenvolvimento Humano, dedica-se ao estudo e à aplicação de metodologias experienciais para o desenvolvimento humano, de equipes e de organizações, integrando ciência, natureza e inovação.

Este artigo integra a série “Ciência da Transformação Humana”, produzida pela Canela Ema Desenvolvimento Humano para compartilhar conhecimentos fundamentados em evidências científicas sobre como a aprendizagem experiencial, a natureza e as relações humanas podem impulsionar o desenvolvimento de pessoas, equipes e organizações.

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