Da experiência à ação: como funciona a metodologia do Canela de Ema

Série Ciência da Transformação Humana

O que faz uma atividade de aventura se transformar em uma experiência de desenvolvimento humano?

A resposta não está simplesmente no arvorismo, na canoagem, em uma trilha ou em um desafio realizado em equipe.

Uma atividade pode ser divertida, emocionante e inesquecível — e ainda assim não produzir, necessariamente, aprendizagem ou mudança de comportamento.

É justamente nessa diferença que está um dos princípios que orientam o trabalho do Canela de Ema Desenvolvimento Humano:

a atividade é um recurso. A experiência de aprendizagem precisa ter propósito, intencionalidade e reflexão.

Nossa metodologia articula conhecimentos de três campos: aprendizagem experiencial, facilitação de experiências pela aventura e transferência da aprendizagem.

A partir desses fundamentos e da experiência prática acumulada pelo Canela de Ema, organizamos nosso trabalho em um ciclo próprio:

VIVENCIAR → REFLETIR → COMPREENDER → CONECTAR → AGIR

Esse ciclo não pretende ser uma nova teoria científica da aprendizagem. É uma formulação metodológica do Canela de Ema, construída a partir de conhecimentos consolidados e utilizada para orientar o planejamento e a facilitação de nossas experiências.

Mas o que isso significa na prática?

 

Antes de vivenciar: começamos pelo propósito

Um dos aspectos mais importantes da nossa metodologia acontece antes mesmo de os participantes chegarem ao Canela de Ema.

Não começamos perguntando:

“Qual atividade vamos fazer?”

Começamos perguntando:

“Quem são essas pessoas e o que queremos mobilizar ou desenvolver com essa experiência?”

Essa diferença é fundamental.

Em uma empresa, o desafio pode estar relacionado à comunicação, liderança, cooperação, autonomia, confiança, integração entre áreas ou tomada de decisão.

Em uma escola, pode envolver convivência, pertencimento, cooperação, responsabilidade, desenvolvimento socioemocional ou educação ambiental.

Em uma família ou grupo, o propósito pode estar relacionado à conexão, confiança, convivência, pertencimento ou fortalecimento dos vínculos.

Somente depois de compreender o público, suas necessidades e os objetivos da experiência é que selecionamos ou construímos os desafios mais adequados.

Por isso, no Canela de Ema, não escolhemos uma atividade e depois procuramos o que ela pode ensinar. Partimos do que queremos desenvolver e construímos a experiência a partir desse propósito.

 

  1. VIVENCIAR: colocar a aprendizagem em movimento

O primeiro movimento é proporcionar uma experiência concreta.

Esse princípio tem uma de suas referências mais conhecidas na teoria da aprendizagem experiencial de David Kolb. Para o autor, aprender envolve um processo que articula experiência concreta, reflexão sobre a experiência, construção de conceitos e experimentação de novas possibilidades.

A experiência, portanto, é importante, mas não funciona isoladamente.

No Canela de Ema, ela pode acontecer por meio do arvorismo, canoagem, trilhas, desafios coletivos, situações de resolução de problemas ou experiências especialmente desenhadas para determinado grupo.

O que buscamos é criar situações nas quais comportamentos e relações possam aparecer na ação.

Uma equipe pode afirmar, por exemplo, que valoriza comunicação, planejamento e cooperação.

Mas o que acontece quando recebe um desafio novo e precisa resolvê-lo coletivamente?

As pessoas param para planejar antes de agir?

Todos recebem as informações necessárias?

Alguém verifica se os demais compreenderam?

Quem assume a liderança?

As diferentes ideias são escutadas?

O grupo pede ajuda quando precisa?

Consegue mudar de estratégia quando percebe que algo não está funcionando?

Nesse momento, comunicação, liderança, confiança ou cooperação deixam de ser apenas conceitos sobre os quais se fala.

Eles aparecem na experiência.

 

  1. REFLETIR: olhar para o que aconteceu

Vivenciar, entretanto, não é suficiente.

Depois da experiência, precisamos criar condições para que as pessoas possam olhar para aquilo que aconteceu.

É aqui que entra o debriefing — um momento estruturado de reflexão sobre a experiência.

Não se trata simplesmente de perguntar:

“Vocês gostaram?”

As perguntas procuram reconstruir o processo:

O que aconteceu?

Como agimos?

Como tomamos nossas decisões?

O que funcionou?

O que dificultou o resultado?

Como nos comunicamos?

Como nos relacionamos diante das dificuldades?

Na aprendizagem experiencial, a reflexão é justamente o que permite examinar uma experiência em vez de simplesmente passar por ela.

No campo da educação e dos programas de aventura, autores como Simon Priest e Michael Gass também destacam a importância da facilitação para ajudar os participantes a atribuir significado às experiências vividas.

Por isso, no Canela de Ema, o debriefing não é uma conversa acrescentada ao final da atividade. Ele faz parte da experiência de aprendizagem.

 

  1. COMPREENDER: tornar visíveis os padrões

Depois de reconstruir o que aconteceu, avançamos para outra pergunta:

O que essa experiência nos ajuda a compreender sobre a nossa maneira de agir e nos relacionar?

É nesse momento que acontecimentos concretos podem revelar padrões.

Talvez o grupo tenha começado a agir antes de compreender o problema.

Talvez todos tivessem informações importantes, mas ninguém tenha organizado sua circulação.

Talvez uma pessoa tenha assumido todas as responsabilidades enquanto outras aguardavam instruções.

Talvez a equipe tenha insistido em uma estratégia mesmo quando os sinais indicavam que ela precisava ser revista.

Mas a experiência também pode revelar recursos.

Uma equipe pode descobrir sua capacidade de adaptação.

Um estudante pode perceber que é capaz de ajudar outro colega.

Uma liderança pode descobrir que o grupo encontra boas soluções quando recebe mais autonomia.

Pais e filhos podem experimentar formas diferentes de cooperação.

O papel do facilitador não é utilizar uma atividade isolada para diagnosticar ou rotular pessoas.

Um comportamento observado durante um desafio aconteceu em determinado contexto e não pode ser tratado como uma verdade definitiva sobre alguém.

O objetivo é diferente:

utilizar aquilo que apareceu na experiência como matéria-prima para reflexão e compreensão.

 

  1. CONECTAR: construir a ponte entre a experiência e a realidade

Esta é uma etapa especialmente importante na metodologia do Canela de Ema.

Depois de compreender o que aconteceu, fazemos outra pergunta:

Onde isso aparece na nossa realidade?

Imagine que uma equipe tenha começado um desafio sem compartilhar todas as informações disponíveis.

A reflexão pode começar pela própria atividade:

“O que aconteceu conosco?”

Mas ela precisa avançar:

“Isso também acontece nas nossas reuniões, projetos ou decisões?”

Em uma escola, um grupo pode perceber que alguns estudantes ficaram sistematicamente fora das decisões:

“Isso também acontece na convivência da turma?”

Em uma família, pais e filhos podem perceber que, diante de uma dificuldade, cada um tentou resolver o problema sozinho:

“Como pedimos e oferecemos ajuda nas nossas relações?”

Chamamos essa etapa de CONECTAR porque buscamos construir uma ponte entre aquilo que aconteceu durante a experiência e os contextos reais nos quais as pessoas vivem, estudam ou trabalham.

Essa preocupação encontra forte respaldo na produção científica brasileira sobre Treinamento, Desenvolvimento e Educação — TD&E.

Pesquisadores brasileiros como Jairo Borges-Andrade, Gardênia Abbad, Luciana Mourão e Thaís Zerbini têm contribuído para compreender como a aprendizagem desenvolvida em ações educacionais pode — ou não — chegar posteriormente ao contexto de trabalho.

Um conceito particularmente importante é o de transferência de treinamento.

Zerbini e Abbad estudaram como conhecimentos, habilidades e atitudes desenvolvidos em uma ação educacional podem ser utilizados posteriormente em situações de trabalho.

Essa literatura nos ajuda a compreender algo fundamental:

aprender durante uma experiência e utilizar essa aprendizagem posteriormente não são exatamente a mesma coisa.

Uma pessoa pode compreender perfeitamente uma discussão durante um treinamento e, ainda assim, encontrar dificuldades para transformar aquilo em comportamento no cotidiano.

Por isso, para nós, CONECTAR é uma etapa própria do processo.

Não queremos que a reflexão termine no desafio realizado.

Queremos ajudar as pessoas a perguntar:

“Onde isso acontece na minha realidade?”

 

  1. AGIR: transformar compreensão em possibilidade de mudança

Depois de vivenciar, refletir, compreender e conectar, chegamos a uma última pergunta:

O que podemos fazer diferente a partir daqui?

Essa etapa dialoga com a ideia de experimentação presente na aprendizagem experiencial e com os estudos sobre transferência da aprendizagem.

O objetivo não é sair de uma experiência com uma lista genérica de boas intenções.

É buscar possibilidades concretas de ação.

Para uma liderança, isso pode significar experimentar uma maneira diferente de delegar.

Para uma equipe, estabelecer uma nova forma de compartilhar informações antes de tomar decisões.

Para estudantes, observar quem está ficando de fora e criar outras formas de participação.

Para pais e filhos, construir mais oportunidades de escuta, cooperação ou presença.

O que será feito depois depende das pessoas e dos contextos nos quais elas estão inseridas.

Por isso, não afirmamos que uma experiência, isoladamente, garante transformação.

Ela pode provocar reflexão, ampliar a consciência sobre determinados comportamentos, permitir novas experiências e produzir compromissos.

Mas a mudança precisa continuar depois.

 

Da aprendizagem à transferência: por que o contexto importa?

Esse é um ponto especialmente importante para compreender nossa metodologia.

A produção brasileira sobre TD&E mostra que avaliar uma experiência apenas pela satisfação dos participantes é insuficiente.

Da mesma forma, demonstrar que alguém aprendeu algo durante uma formação não significa necessariamente que aquilo será utilizado posteriormente.

Estudos sobre transferência e impacto do treinamento procuram justamente compreender o que acontece depois que a formação termina.

O ambiente ao qual a pessoa retorna, as oportunidades de utilizar o que aprendeu e o suporte recebido podem influenciar esse processo.

Isso é especialmente importante no trabalho com organizações.

Uma equipe pode chegar a excelentes conclusões durante uma experiência de desenvolvimento. Mas, se retornar para uma organização na qual processos, lideranças ou práticas cotidianas dificultam aquelas novas formas de agir, a mudança pode não se sustentar.

Por isso, consideramos importante construir conexões entre:

EXPERIÊNCIA → REALIDADE → POSSIBILIDADE DE AÇÃO

Essa preocupação também nos impede de fazer promessas simplistas sobre desenvolvimento humano.

Não existem percentuais mágicos de aprendizagem.

Não podemos afirmar que uma atividade garante mudança de comportamento.

E não é cientificamente adequado dizer que simplesmente viver uma experiência é sempre superior a outras formas de aprender.

O que a literatura nos permite afirmar é mais interessante:

experiências podem constituir importantes oportunidades de aprendizagem quando são intencionalmente planejadas, acompanhadas de reflexão e relacionadas aos contextos nos quais as pessoas precisarão agir.

 

O que diferencia a metodologia do Canela de Ema?

Nenhum dos elementos que utilizamos foi inventado isoladamente por nós.

Aprendizagem experiencial possui uma longa tradição científica.

A reflexão faz parte de diferentes teorias de aprendizagem.

A facilitação pela aventura possui literatura própria.

E transferência da aprendizagem é um importante campo de pesquisa internacional e brasileiro.

A contribuição metodológica do Canela de Ema está na forma como articulamos esses elementos em nossas experiências.

  1. Partimos do propósito, não da atividade

Primeiro buscamos compreender quem são as pessoas e o que se pretende mobilizar ou desenvolver.

Depois escolhemos a experiência.

  1. Utilizamos natureza e aventura como recursos metodológicos

Arvorismo, canoagem, trilhas e desafios não são fins em si mesmos.

São possibilidades para colocar pessoas diante de situações concretas que mobilizam comportamentos, decisões e relações.

  1. Tornamos a experiência objeto de reflexão

O debriefing ajuda o grupo a observar aquilo que aconteceu, em vez de simplesmente concluir uma atividade e passar para a próxima.

  1. Não transformamos comportamentos observados em rótulos

Aquilo que aparece durante uma experiência é utilizado para provocar perguntas, não para produzir diagnósticos definitivos sobre pessoas.

  1. Criamos uma etapa explícita de conexão

Perguntamos intencionalmente:

“Onde isso aparece na nossa realidade?”

Essa é a ponte entre compreender uma experiência e pensar em novas formas de agir.

  1. Terminamos olhando para a ação

A aprendizagem precisa abrir possibilidades para escolhas futuras.

Por isso, nosso ciclo termina com uma pergunta:

“Diante do que vivemos e compreendemos, o que podemos experimentar fazer diferente?”

 

Uma metodologia própria, fundamentada em conhecimento científico

O ciclo:

VIVENCIAR → REFLETIR → COMPREENDER → CONECTAR → AGIR

é uma formulação metodológica do Canela de Ema.

Não atribuímos essas cinco etapas a Kolb, a Abbad ou a qualquer outro autor.

Nossa metodologia dialoga com diferentes campos do conhecimento e organiza esses fundamentos a partir da prática desenvolvida pelo Canela de Ema.

Podemos representá-la assim:

VIVENCIAR
Entrar em uma experiência concreta que mobiliza comportamentos e relações.

REFLETIR
Observar o que aconteceu e como as pessoas agiram.

COMPREENDER
Identificar padrões, recursos, dificuldades e aprendizagens.

CONECTAR
Relacionar o vivido aos desafios reais da vida, da escola, do grupo ou do trabalho.

AGIR
Transformar a compreensão em possibilidades concretas de novas escolhas e atitudes.

Esse ciclo pode ser utilizado com públicos diferentes porque o processo permanece, mas o propósito muda.

Com empresas, podemos trabalhar desenvolvimento de pessoas e equipes.

Com escolas, aprendizagem, convivência e desenvolvimento socioemocional.

Com famílias e grupos, relações, conexão, cooperação e fortalecimento de vínculos.

 

A aventura é um meio. O desenvolvimento humano é o propósito.

Essa frase sintetiza a maneira como compreendemos nosso trabalho.

No Canela de Ema, a natureza não é apenas cenário.

A aventura não é apenas entretenimento.

E a atividade não é um fim em si mesma.

São recursos para construir situações nas quais pessoas possam experimentar, observar, refletir, compreender e questionar suas formas de agir e de se relacionar.

Por isso, antes de escolher uma atividade, buscamos compreender:

Quem são essas pessoas?

Qual é o contexto?

O que desejamos mobilizar?

Que experiência pode favorecer essa reflexão?

E, depois da experiência:

O que aconteceu?

O que podemos compreender?

Onde isso aparece na nossa realidade?

O que podemos fazer diferente?

É esse percurso que buscamos representar em nossa metodologia:

VIVENCIAR → REFLETIR → COMPREENDER → CONECTAR → AGIR

Da experiência à reflexão.
Da reflexão à compreensão.
Da compreensão à realidade.
Da realidade a novas possibilidades de ação.

É assim que buscamos transformar aventura em oportunidade de desenvolvimento humano.

 

Referências

ABBAD, Gardênia da Silva; BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo. Aprendizagem humana em organizações de trabalho. In: ZANELLI, José Carlos; BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; BASTOS, Antonio Virgílio Bittencourt (org.). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

ABBAD, Gardênia da Silva et al. (org.). Medidas de avaliação em treinamento, desenvolvimento e educação: ferramentas para gestão de pessoas. Porto Alegre: Artmed, 2012.

BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; ABBAD, Gardênia da Silva; MOURÃO, Luciana (org.). Treinamento, desenvolvimento e educação em organizações e trabalho: fundamentos para a gestão de pessoas. Porto Alegre: Artmed, 2006.

KOLB, David A. Experiential Learning: Experience as the Source of Learning and Development. 2. ed. Pearson Education, 2015.

PRIEST, Simon; GASS, Michael A. Effective Leadership in Adventure Programming. 3. ed. Champaign: Human Kinetics, 2018.

ZERBINI, Thaís; ABBAD, Gardênia. Construção e validação de uma escala de transferência de treinamento. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 30, n. 4, p. 684–697, 2010. DOI: 10.1590/S1414-98932010000400002.

ZERBINI, Thaís; ABBAD, Gardênia. Aprendizagem induzida pela instrução em contexto de organizações e trabalho: uma análise crítica da literatura. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v. 13, n. 2, p. 177–193, 2010. DOI: 10.11606/issn.1981-0490.v13i2p177-193.

Sobre a autora

Profa. Dra. Rosa Maria Corrêa é psicóloga, mestre e doutora em Educação, com pós-doutorado em Ciências Sociais. Professora da PUC Minas e diretora técnica do Canela de Ema Desenvolvimento Humano, atua no desenvolvimento de pessoas, equipes e relações por meio de metodologias experienciais que articulam natureza, aventura, reflexão e conhecimento científico.

Este artigo integra a série Ciência da Transformação Humana, do Canela de Ema Desenvolvimento Humano, criada para aproximar conhecimento científico e prática e apresentar, de maneira acessível, os fundamentos que orientam nossas experiências com empresas, escolas, famílias e grupos.

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